7.5.07
Benditos Travesseiros

Meus travesseiros já estão quase falando… Sério, eles são quase humanos, sentem dor comigo, riem comigo, transpiram de tesão ou tensão comigo. Amigos leais, amantes fieis, ombro para toda hora, conforto para os dias de solidão… Não digo que são consolos, porque já vão pensar sacanagem… Ah, meus queridos travesseiros… dizem tanto… sons abafados, quase acuados, reprimidos coitados…
Houve dias em que abraçada a eles no escuro do quarto, eu ouvindo a voz rouca do provável amor amante ficava toda boba, e eles foram testemunhas silenciosas dessas conversas telefônicas que duravam horas. Ouviram juras que não foram feitas e outras tantas feitas, outras ainda sentidas, pensadas, amadas. Ouviram o desejo chegando louco, tomando conta de nós e ali caladinhos, sorriram sacanas. Mas eles sonharam também…sonharam com suas “travesseiras”, aquelas que o outro traria, seria o encontro perfeito…os quatro brindariam e brincariam, faríamos guerra de travesseiros e depois dormiríamos abraçadinhos…todos os quatros…
Enquanto isso não acontecia, ficavam agarradinhos comigo, ao lado do meu corpo na cama espaçosa, cama de casal que não tinha casal… alias, tinha sim…porque meus queridos travesseiros muitas vezes eram melhores que qualquer outro corpo humano…tinha horas que eu quase sentia e ouvia sua respiração. Isso é o cumulo da carência, não é??? É carência sim, porque solidão eu não tenho, eles estão comigo na hora mais solitária: a noite! E depois de algum tempo eles vão entrando na vida da gente…Sabe, já me peguei colocando-os certinhos deitados ao meu lado na cama, com todo o cuidado, cheio de carinho. O pior foi o dia em que minha empregada levou um susto quando foi arrumar minha cama, depois que eu sai para academia. Não é que o edredom caiu em cima dos travesseiros e ela pensou que era uma pessoa? Para ser mais exata, um homem. Não sei se ela realmente assustou ou se adorou pensar na possibilidade de um corpo masculino em casa, transitando só de short ou sunga, uma cueca jogada no banheiro, talvez fosse interessante…dava um ar de vida após a morte, sei lá…Não que eu estivesse assim tão mal, claro que não! Mas a bendita esperou eu chegar estressada e cansada, depois de suar feito louca na academia pulando de aparelho de ginástica em aparelho para gastar as calorias e “energias” acumuladas…e perguntou : “Dona Laura, por que a senhora coloca os travesseiros igual gente, do seu lado na cama? Poxa, hoje fiquei até feliz…pensei que a senhora tinha arrumado um namorado, mas era não…foi é susto que levei.”
Mas vejam vocês se tem cabimento, confundir travesseiros com gente, só a maluca da Josefa mesmo. Ta certo que meus travesseiros são fofos, bonitinhos, mas não são humanos, não substituem um namorado, não deslizam as mãos no meu corpo assim como quem não quer nada…não roncam, não dormem vendo TV nas alturas, não acordam na madrugada loucos pra dar umazinha e encostam aquela coisa rígida e grosseira no meu bumbum…É…tudo bem…eles não dormem só de cueca ou pelados com o ar condicionado no máximo e eu encolhida embaixo dos edredons e quando ele vem abraçar querendo aquela umazinha de madrugada, sinto maior frio…não sei como o bendito ainda consegue aquela proeza, mas não é que ele consegue deixar o quarto quente e eu morrendo de calor???
Tudo bem é claro, meus travesseiros não fazem tanto, mas tem tarefa importante a meu lado: não deixam que a cama fique gelada e quando eu vire leve um susto, me ouvem chorar e falar por horas e não reclamam, enfim…meus travesseiros são o máximo!
E nem venham falar que se apegar aos travesseiros é o cumulo da solidão, não é… É só uma questão de ponto de vista…Claro, não pode se tornar uma coisa inseparável, daquelas que “onde for levo meus travesseiros”…isso não, de jeito algum, até porque com namorado você não o leva aonde vai…Viu?…É igual!
Bem, vou torcer para que meus travesseiros arrumem suas “travesseiras”… assim quem sabe elas não trazem junto “travesseirinho” de orelha…braços, boca, pernas, nariz…para mim…
Kyrana


criado por kyranaa
22:14 — Arquivado em:
Comentário por Alessandra Schor — 4.11.07 @ 1:09
Adorei este texto!!
Beijinhos…
Ale.